
Remexendo meus arquivos do computador, encontrei um texto que apresentei em um Congresso Internacional sobre Acompanhamento Terapêutico, há alguns anos. Na ocasião, fui convidada a falar da “construção de redes (sociais) na clínica privada (do acompanhamento terapêutico)”.
Dizendo de uma forma bem simples, o Acompanhamento Terapêutico é uma modalidade de atendimento em saúde mental que tem como princípio a ampliação do ato clínico psicoterapêutico.
E como estou iniciando um espaço onde posso compartilhar ideias nessa grande Rede internacional, pensei que seria oportuno começar falando sobre ela: a Rede, pegando um gancho nestes escritos.
Senti vontade de mudar o formato do artigo pra poder compartilhar aqui. Então vamos lá.
Como definição, uma rede é uma quantidade de pontos interligados numa malha, utilizada desde épocas pré-históricas na pesca e na caça. Posteriormente, redes passaram também a ser utilizadas noutras atividades, como na navegação, na construção, no esporte, na informática.
E fui divagando nesta ideia de Rede: cair na rede, por exemplo, é uma expressão que se usa para indicar que alguém caiu em uma cilada; entrar na rede indica que alguém está conectado ao resto do mundo pelo computador; no Ceará fala-se em rede de quatro chinelos, que é a rede onde dorme um casal; os bombeiros usam rede de salvamento; os caçadores usam rede de caça; os pescadores, rede de arrasto; no esporte se usa rede para separar territórios, rede para delimitar erros e acertos (dependendo do ponto de vista de cada um).
Continuei pensando nos tipos de rede que temos na nossa cultura, e nas funções e possibilidades que cada uma delas apresenta. Existe rede elástica, que te impulsiona, se você também fizer uma força neste sentido; existe rede que captura, e que te prende sem te dar espaço para escapar ou se movimentar, e aí te paralisa; existe rede que protege e que te impede de avançar na direção que representa perigo, que serve de continente; existe rede que organiza, e que sustenta algo para que fique tudo no lugar; e existem outras tantas meta redes, como a rede de intrigas, a rede política e a rede social.
Enfim, tem rede que salva e tem rede que prende; tem rede que junta, tem rede que separa. Tem rede que faz o movimento para dentro e rede que faz o movimento para fora.
É inevitável perceber porque a palavra Rede é tão pertinente para a sustentação que precisamos criar para ora proteger, ora impulsionar, ora limitar o nosso próprio universo.
Sendo assim, penso que também fazemos não só um, mas vários tipos de redes e aí uma série de questões começam a ficar mais evidentes: que tipo de rede estamos tecendo em nossas vidas? Será que estamos usando estas redes a nosso favor? Ou será que estamos usando-as como cilada, como uma armadilha que irá nos aprisionar ao invés de nos impulsionar? A rede que faz o movimento para fora é melhor do que a que faz o movimento para dentro?
Cada rede tem uma configuração particular: depende do ambiente onde se forma e atua, da cultura política dos membros e em especial da cultura política dos facilitadores, dos objetivos que são compartilhados e do momento que se está vivendo.
Redes de relações são inerentes às atividades humanas. No nosso dia-dia tecemos redes que sustentam nossas rotinas. Temos pessoas que envolvem nossa vida social e profissional, como colegas de profissão, o dono da padaria, o motorista do ônibus, o frentista do posto de gasolina, o garçon do barzinho. E temos nossa rede de afetos, que são as pessoas que amamos. Então, todas as nossas atividades cotidianas nos levam a formar redes de relações. Estas são as redes espontâneas, que nascem da nossa necessidade de manter relações com o outro e da nossa capacidade para realizá-la.
Mas nem todas as redes são formadas espontaneamente, e nem todas as pessoas têm a capacidade para formá-las e mantê-las. A intencionalidade nos relacionamentos, os objetivos comuns conscientes, explicitados, compartilhados são características das redes sociais.
E com aqueles que fazem parte da nossa rede social, que são nossos parentes, amigos, ou mesmo funcionários, vamos fortalecendo estes laços a fim de criar um ambiente de confiança mútua, respeito e afetividade.
Buscamos, dentro do que o nosso meio social oferece, oportunidades de ir sempre um pouco mais além do que cada um já foi. Procuramos, a partir dos nossos desejos, coisas para se fazer, lugares para ir, coisas para se ver e sentir. Em cada lugar que vamos e que depois voltamos, seja por necessidade, por desejo, ou por insistência de outros vamos tecendo fios e reconhecendo aquelas pessoas como sujeitos do nosso próprio mapa social ampliado.
Portanto, fazemos redes porque não somos suficientes para suprir todas as nossas necessidades. Mas seria importante refletirmos constantemente para que a estrutura de rede não se enrijeça espelhando a cronicidade da nossa cultura; e procurar a flexibilidade nas redes, pois as configurações e dinâmicas são bem variadas.
Como vocês já devem ter concluído, nem sempre a rede que impulsiona é melhor do que a rede que limita. É preciso olhar para cada situação como ela merece, por ser única, pois flexibilidade demais não dá sustentação e limitação demais impede o crescimento.
Penso que fazemos as redes procurando realizar conexões, manter um fluxo de comunicação aberta, expandir universos internos, tornar suportável a convivência com os opostos, e tentar fazer com que atitudes como compartilhamento, cooperação, horizontalidade das relações de poder e tensão sejam também suportáveis.
Enfim, ampliar nossas redes e sustentá-las de maneira saudável é um desafio, pois exige de cada um sair de seu mundinho, da sua célula/cela, e se dispor a fazer conexões variadas, o que na prática não é nada fácil. É sempre um desafio!
Bons desafios pra todos nós!